Todo mundo acha que sabe ouvir. É uma das habilidades que as pessoas mais superestimam em si mesmas, e uma das que mais reclamam não receber.
O que a gente faz em vez de ouvir
Prepara a resposta. Enquanto o outro fala, a cabeça já está montando o contra-argumento. É eficiente para discutir e péssimo para entender.
Compara. “Isso não é nada, comigo aconteceu pior.” A intenção costuma ser mostrar empatia; o efeito é tirar o assunto da pessoa.
E resolve. Especialmente comum entre homens que foram criados para consertar coisas: alguém traz um problema e recebe uma solução em vinte segundos, quando queria só ser ouvido.
Por que resolver rápido incomoda
Porque a solução, mesmo boa, comunica que a conversa acabou. E quem estava falando frequentemente ainda não tinha terminado de organizar o que sente.
Uma pergunta simples resolve isso: “você quer uma opinião ou quer só falar?”. Parece artificial na primeira vez e vira natural na terceira.
O sinal de que alguém ouviu
Não é concordar. É a pessoa conseguir repetir o que você disse de um jeito que você reconhece.
Isso é a coisa mais próxima de uma técnica que existe neste texto, e funciona: antes de responder, dizer com suas palavras o que você entendeu. Metade das discussões morre aí, porque fica claro que o mal-entendido era outro.
O caso da conversa difícil
Quando o assunto é uma queixa sobre você, ouvir fica muito mais difícil — a defesa sobe automaticamente.
O que ajuda é adiar a resposta de propósito. Ouvir tudo, dizer que precisa pensar, e voltar ao assunto no dia seguinte. A resposta dada depois de um dia costuma ser melhor que a dada em dois segundos, e o outro se sente levado a sério.
Uma observação sobre casais longos
Depois de muitos anos, existe a certeza de já saber o que o outro vai dizer. Às vezes é verdade. Mas essa certeza é a maior inimiga da escuta, porque faz a pessoa parar de prestar atenção exatamente quando o outro está tentando dizer algo novo.
Rogério Villaça escreve no Papo em Dia sobre o que faz uma conversa funcionar ou travar dentro de um relacionamento. Separado depois de dezessete anos, aprendeu tarde que a maior parte do que não deu certo tinha passado por uma conversa que ninguém teve.





